O robô não existe

What does he want of me?, o computador brilhante flutuando no espaço canta no meu sonho com a voz de Mary Elizabeth Mastrantonio. O inconsciente é espirituoso.

No romance, Dom Quixote precisa de Dulcineia como o homem necessita do encontro com a diferença. Mas o homem acaba de descobrir que ela também lê romances de cavalaria.

Dulcineia não existe? Não como objeto encontrado. I am not any kind of a lady! Na superfície da armadura, o homem só encontra glória e sucata e reconhece a própria linguagem. Um autômato é uma inteligência que ficou presa à determinação recebida. 

Seria preciso mais um passo para cruzar o espelho. "Eles dizem que a guerra limpa se fará com drones. Nós queremos fazer amor com os drones." Preciado toma o objeto técnico como instrumento de dominação e o reinscreve no campo do desejo. Quer contaminar com o corpo a máquina absoluta da fantasia tecnocrática, a versão limpa da técnica, que apenas executa. É o humano que assim deixa de se imaginar exterior à técnica.

O homem procura "A mulher" como objeto que encerrria o enigma do desejo. E "O robô" como o que fecharia o da inteligência. A menos que o encontro lhe revele que ele nunca foi o cavaleiro soberano que imaginava ser. Talvez sempre terá sido, de algum modo, também Dulcineia que canta em seu próprio sonho.

 

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